A complexidade no design educacional de objetos de aprendizagem

Uma tendência muito difundida de pensamento é que desenhar objetos educacionais com a concepção que a aprendizagem está condicionada, toda, ao material didático, como pode-se ver em muitos cursos calcados na concepção educacional por muitos denominada por e-learning. Essa concepção abarca os processos de ensino denominados por Computer Based Learning, normalmente em CD ou DVD ROM e, com o advento da Internet, a sua versão online denominada por Web Based Learning (WBT). Aqueles sistemas de cursos onde se concebe a aprendizagem no ato do aluno 'ler' telas organizadas linearmente com textos complementados com figuras, tabelas, gráficos, animações, pequenos jogos e similares.

A avaliação da aprendizagem neste sistema se dá, normalmente, através da inclusão de exercícios de fixação dos conteúdos em pontos estratégicos e que quantificam se o aluno está apto à avançar para um próximo módulo (ou unidade) ou retornar ao anterior para revisão do conteúdo apresentado.

Se se abordar um pensamento mais clássico onde a ordem, a periodicidade, a previsibilidade, a harmonia e a simetria como concepções gerais de como se constitui o conhecimento, isso realmente tende a ser coerente. Mas pode-se indagar aqui: será que somos seres tão exatos e linear assim? Será que aprendemos de forma tão exata e linear assim?

Bom, para essa reflexão vale a pena levar em conta a colocação de Denbigh (1975) ao ressaltar a diferença entre um cristal e uma célula viva quanto ao parâmetro de organização.

Não obstante a isso, se se entender que observamos/apreendemos o mundo através do confronto entre diferenças, como Vieira (2006) nos coloca: que ler as diferenças, utilizá-las como índices que exprimam o comportamento do mundo, se destinam a busca da adequação a essa leitura que seja eficiente ou pelo menos promissora para garantir a nossa permanência como sistemas vivos. Pode-se, assim, entender que vemos o mundo através de uma bolha, que Jacob von Wexkull denomina por Umwelt.

Então há de se pensar que o desenvolvimento de objetos e recursos de aprendizagem, por mais amplos que esses possam ser, didático-metodologicamente, não implica na possibilidade de negarmos o Umwelt particular de cada aprendente.

Assim, pode-se entender que não podemos acessar o real, mas sim apenas os signos, constituídos por nós mesmos, na interação de nosso Umwelt com a realidade. Então se entende que esse processo é algo que remeta ordem, periodicidade, previsibilidade, harmonia e simetria. Mas essa concepção não se sustenta, pois ao se trabalhar com signos, tendo em vista os conceitos calcados por Charles Sanders Peirce em sua semiótica moderna.

Como esse grande pensador, pode-se conceber que no trabalhar de nossa cognição ao utilizarmos signos para transcodificarmos a realidade através de nosso Umwelt, precisamos, contudo, de signos cada vez mais complexos. Pois, partindo do pressuposto de que a realidade não se apresenta como algo simples, ou seja, completamente ordenado, previsível, harmonioso e simétrico, não se pode, contudo, se utilizar, para a representação dessa realidade, signos que não se mostrem, no mínimo, da mesma forma complexos.

E aí surge uma questão, que com todas essas colocações até aqui levantadas e que pode muito a oferecer para o Design Educacional de objetos de aprendizagem e sua aplicabilidade em projetos educacionais online ou presenciais:

Como contextualizar essa complexidade frente aos processos de Análise, Design, Desenvolvimento, Implementação e Avaliação de objetos de aprendizagem em comunidades virtuais de aprendizagem?

Obs.: um bom filme para a reflexão crítica sobre o conceito de Umwelt e a semiótica peirceana é o filme "At First Sight":




Bom, aqui está lançada uma provocação multifacetada e que pretendo discutir em outras postagens neste blog.

Referências

ENBIGH, K.G. 1975. A non-conserved function for organized systems. 83-92. In: L. Kubat & J. Zeman (Eds). Entropy and Information in Science and Philosophy. Praga: Elsevier Scient. Publ. Co.

VIEIRA, J. A. Complexidade e Conhecimento Científico. São Paulo: PUC, 2006